Numa altura em que aumenta o recurso à inteligência artificial (IA) em busca de terapia, saliento a importância da relação terapêutica e de como é discutível que esta seja estabelecida com uma máquina.
Talvez nunca tenha havido tantos terapeutas disponíveis para acompanhar o outro como hoje, oferecendo as mais diversas abordagens, técnicas e métodos, oriundos de meios diferentes – desde o mais académico ao mais holístico – e capazes de chegar a quem busca ajuda das mais variadas formas e usando linguagens diversas.
Ainda assim, paradoxalmente, investigações recentes revelam que há cada vez mais pessoas a recorrer a chatbots de Inteligência Artificial (IA), como o ChatGPT, para obter apoio terapêutico. Estas pessoas (47% nos EUA, segundo um estudo da Sentio University) confiam em máquinas e algoritmos, entregando-lhes o que têm de mais precioso: as suas angústias, medos e dúvidas, debatendo diagnósticos e emoções e tudo o mais que tem cabimento numa sessão de terapia.
Mas (para lançar ainda mais confusão) sabe-se, e está amplamente demonstrado, que mais do que o domínio de técnicas e protocolos, é a qualidade da relação estabelecida entre terapeuta e paciente/cliente que constitui o principal fator preditivo do sucesso terapêutico. Ou seja, quanto melhor for a relação, maior será a probabilidade de a pessoa alcançar bons resultados no processo terapêutico.
A relação terapêutica é única, não tem paralelo com nenhuma outra. Apoia-se na poderosa escuta levada a cabo pelo terapeuta, treinado para receber e sentir o outro, com a mente e o coração.
Não acredito que uma relação deste tipo possa ser estabelecida com uma máquina. Não acredito que um chatbot possa sentir ressonância com um ser humano. Poderá, sim, ter sido bem treinado para escrever/dizer as palavras que as pessoas querem ler/ouvir. Mas isso é outra coisa e não se chama terapia.
Texto publicado originalmente no Instagram e Facebook no dia 30/05/2025