Numa altura em que abundam os conselhos e dicas para relações amorosas de sucesso, a psicóloga Brenda Shoshanna consegue, com “Zen e a Arte de Amar”, contribuir para a causa, apelando à sabedoria oriental e, sobretudo, à responsabilidade de cada um em estar presente, consciente e disponível para o outro.
A palavra “zen” é usada para tantas coisas, que já quase nos faz revirar os olhos. Por causa disso, adiei a leitura deste livro até decidir dar-lhe uma oportunidade. Ainda bem que dei. Nele encontrei pistas para perspetivar os relacionamentos (amorosos e não só) a partir de outras premissas. Por exemplo, a autora combina de forma inteligente e harmoniosa a psicologia com a prática zen, nomeadamente, com a meditação de simples observação da respiração, pensamentos e sentimentos. Ao longo da leitura, senti-me levada pela mão através do zendo (a sala onde se pratica a meditação zazen) como se de uma relação se tratasse.
Os “trabalhos” das relações
O livro é simples, a sua leitura é desafiante. Não é que sejam usados conceitos complexos ou se façam raciocínios elaborados – não é isso. É que as relações não são fáceis, e o zen (o verdadeiro) assenta em princípios que podem parecer-nos difíceis. E o que é difícil dá trabalho. As relações dão trabalho. Dão tanto trabalho que, muitas vezes, o mais fácil é descartá-las. Sem parar para olhar, sentir e refletir sobre o que fazemos e repetimos. Sobre o que procuramos e provocamos. Mudamos para outra relação antes de nos sentarmos em silêncio com a relação que temos, com tudo o que esta é, com tudo o que nela somos.
É isso que Brenda Shoshanna, psicóloga e praticante zen, nos traz neste livro: um convite a que nos sentemos e observemos as nossas relações, dando-nos pistas para o fazermos. Gostei especialmente da parte em que compara a relação amorosa a um koan, que é uma espécie de enigma muito comum no budismo zen, que os praticantes são desafiados a resolver:
A tarefa de resolver koans é, de facto, um treino na arte de aprendermos a apaixonar-nos. (…) Enquanto as pessoas não souberem como se relacionar com os seus problemas insolúveis, os relacionamentos não poderão florescer verdadeiramente e o amor não terá oportunidade de crescer. p. 151
Brenda Shoshanna, in “Zen e a Arte de Amar”, Ed. Presença, 2009.
Texto publicado originalmente no Instagram e Facebook no dia 05/09/2025, integrado na rubrica de sugestões literárias e biblioterapia