Tendemos a preferir umas emoções em detrimento de outras, mas não existem emoções boas ou más. Todas cumprem um propósito: o de nos ajudar a expressar o nosso mundo interno.

Sem dúvida que uma das coisas que me teria ajudado no meu percurso é que alguém me tivesse dito mais cedo que todas as emoções são válidas e não existem emoções boas e más. Que não é suposto fazer de conta que não nos atingem ou ignorá-las na expectativa de que desapareçam. Na verdade, fazendo isso, elas não só não desaparecem como tendem a aumentar, porque precisam de ser vistas e ouvidas. Pensemos nas emoções como crianças.

Mas isto aprendi eu à minha conta, já que quando comecei a enveredar pelo caminho do autoconhecimento, da meditação e das terapias complementares, o convite que era feito (ou a forma como eu o percecionava) incidia, de certa forma, no escapismo, no “bypass espiritual”. A proposta era algo assim do género: “Sinto raiva, mas sentir raiva é mau, logo, faz de mim má pessoa. Então, vou ficar aqui a ver se a raiva má e feia desaparece”. Mas a verdade é que, fazendo assim, nunca desapareceu, nem esta nem nenhuma outra emoção que me esforcei por “esquecer”. Ao não ser acolhida, a emoção “rejeitada” vai-se instalando e também alimentando de tudo o que possa soar-lhe familiar. Cresce assim dentro de nós, quando a única coisa que queríamos era não senti-la.

Cada emoção tem um propósito

Pensamos nas seis emoções consideradas básicas ou primárias, segundo a Teoria das Emoções, criada pelo psicólogo norte-americano Paul Ekman: medo, tristeza, alegria, raiva, surpresa e asco ou nojo. É tendencialmente mais fácil assumirmos e expressarmos alegria em relação a algo que a sociedade considera positivo do que raiva em relação a esse mesmo motivo. A raiva, mas também a tristeza, por exemplo, são emoções vistas como negativas e a evitar a todo o custo. Todos queremos parecer pessoas alegres, soltas e felizes, de bem com a vida e com os outros. Mas a vida é composta por um mosaico diverso de experiências capazes de nos levar a sítios emocionais a que nunca pensámos ir. Porém, chega um dia em que somos convidados a atravessar esse limiar. Resta saber se decidimos atravessá-lo ou continuamos a varrer as emoções para debaixo do tapete.

Todas as emoções têm um propósito, e sem elas é como se fôssemos pessoas amputadas na expressão. Se sinto raiva, sinto. Preciso de aceitar que a sinto. Às vezes, basta ficar sentada com ela e disponibilizar-me a ouvir o que tem para me dizer.

Intimidade com as emoções

Claro que uma coisa é o que sinto e outra totalmente diferente é o que faço com isso. Não é porque sinto raiva que é lícito matar alguém. Somos responsáveis pelos nossos comportamentos, e a maturidade traz-nos isso. Mas, para tal, precisamos de ter intimidade com as nossas emoções e isso implica aceitá-las como fazendo parte da nossa experiência humana – não existem emoções boas ou más. 🫀

A Terapia Transpessoal, e técnicas como o Diálogo de Vozes, ajudam a dar espaço às emoções, a que estas surjam e sejam ouvidas. E, acreditem, a mudança de perspetiva pode ser transformadora. Quem me dera que a Andreia criança ou jovem adulta soubessem disto como sabe a de hoje.