Controlamos muito poucas dimensões da vida e precisamos de abrir mão desse controlo ilusório para aceitar a vida tal como é, o mistério que nos toca viver. Mas isso não nos iliba de fazermos a nossa parte.

Certa vez, uma pessoa inscreveu-se num curso de desenvolvimento pessoal, mas disse ao professor que não tinha a certeza se iria aparecer na formação. O professor ficou confuso e o aluno explicou-lhe: “Nesse dia, não vou colocar o despertador. Se acordar a horas, é porque é para ir; se não acordar, é porque não é.” Esta história é real, mas não se passou comigo. Foi-me contada em jeito de anedota, numa altura em que eu própria organizava várias formações nessa área (a foto é dessa altura, numa ida à RTP para falar sobre isso), e retive-a porque ilustra algo com que muitas vezes lidamos à medida que navegamos nas águas da espiritualidade. Refiro-me à tendência para a desresponsabilização em relação a comportamentos, escolhas ou interações, atribuindo a causa de tudo o que acontece (ou não) ao universo.

É verdade que uma das áreas que mais se trabalha no caminho do autoconhecimento, do crescimento pessoal e da tomada de consciência, é a aceitação de que controlamos muito poucas dimensões da vida e precisamos de abrir mão desse controlo ilusório – e causador de grande sofrimento – para aceitar a vida tal como é, o mistério que nos toca viver.

Ainda assim, não é menos verdade que somos nós os protagonistas da nossa experiência humana, pelo que precisamos de ser nós a definir a rota, a imprimir o ritmo, a emprestar os nossos sonhos à concretização da nossa vida. Temos de ser nós a colocar o despertador, a levantar da cama e a apanhar os transportes que nos levam lá.

Por diversas ocasiões, já tive de me render ao mistério, dando passos atrás no caminho que tinha antevisto. Já me senti perdida ao ponto de ter de ficar uns tempos resguardada na gruta, à espera. Mas fazer isto é, tantas vezes, fazer o que está ao nosso alcance. Ficar à espera é, por vezes, fazer o que há para fazer. Porém, noutras ocasiões, ficar à espera que algo aconteça sem fazer nada por isso é apenas uma perda de tempo (para usar uma expressão simpática).

Porque é claro que não controlamos o mistério, mas podemos sempre fazer a nossa parte.

Texto publicado originalmente no Instagram e Facebook no dia 08/01/2025