Algumas dimensões da doença só se revelam quando o profissional de saúde se interessa por quem tem à sua frente. A medicina narrativa é um convite à escuta, à empatia e à compreensão profunda do ser humano que existe em cada paciente. Mas, afinal, o que é a medicina narrativa e quais são os seus benefícios?
Perdi a conta ao número de horas que já passei fechada em auditórios e salas de hotel a assistir a conferências médicas – e depois a escrever sobre elas. Atualização de protocolos de tratamento das mais variadas doenças, o estado da arte da medicina, a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde ou os novos modelos de financiamento… Sobre tudo isto, e muito mais que não cabe aqui, fui escrevendo enquanto jornalista de saúde e, depois, medical writer. Mas de tudo o que ouvi e aprendi, a área que sempre me fez querer saber mais foi a que se relaciona com a dimensão humana do profissional de saúde. Mais concretamente, a sua capacidade de estar presente e escutar com compaixão a pessoa que está do lado de lá, em regra numa posição difícil e vulnerável.
De todas, as palestras proferidas pelo neurocirurgião João Lobo Antunes foram, sem dúvida, as que mais me tocaram. E foi por causa delas que acabei por me interessar pela medicina narrativa. Este conceito acabou por ser introduzido em Portugal, muito devido ao trabalho e empenho deste médico na promoção de uma medicina mais humanista e próxima do doente. Acima de tudo, João Lobo Antunes procurava sensibilizar as plateias, geralmente compostas por médicos de todas as idades e especialidades, para o sofrimento do doente, salientando que só a escuta e o olhar atento revelam o que nenhuma análise ou exame clínico conseguem detetar. E isto é a essência da medicina narrativa, como explico já de seguida
“Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa: é que a medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se inventem cada vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda a forma de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão.”
João Lobo Antunes, in “Ouvir Com Outros Olhos”, Gradiva, 2016, pp. 33-34
O que é a Medicina narrativa?
A medicina narrativa é uma abordagem que valoriza as histórias dos pacientes como parte essencial do cuidado. Criada e desenvolvida pela médica e investigadora norte-americana Rita Charon, da Universidade de Columbia, Nova Iorque, EUA, esta prática propõe que os profissionais de saúde desenvolvam competências narrativas — como escuta ativa, interpretação e empatia — para compreender melhor o sofrimento, os contextos e os significados atribuídos à doença.
De acordo com Rita Charon (2001), “a competência narrativa permite ao médico reconhecer, absorver, interpretar e ser movido pelas histórias dos pacientes”. Desta forma, em causa está uma medicina que escuta antes de intervir, que interpreta antes de prescrever.
Porque é que a medicina narrativa é importante?
Integrar a medicina narrativa na prática dos profissionais de saúde (e não apenas dos médicos, ainda que esse tenha sido o seu foco inicial) oferece inúmeros benefícios, aumentando exponencialmente as vantagens já oferecidas pelo amplo desenvolvimento técnico e científico das ciências médicas.
Os benefícios podem encontrar-se em três vertentes:
Profissionais de saúde
- Desenvolvimento da empatia: A medicina narrativa desenvolve a capacidade de os profissionais de saúde se sensibilizarem e colocarem no lugar do paciente, compreendendo os seus sentimentos e o impacto que a doença tem nas suas vidas reais;
- Ampliação da interpretação clínica: Quando há escuta atenta é mais fácil ao profissional de saúde perceber outras dimensões da história do paciente, as quais podem ajudar a compreender sinais e sintomas. Como tal, a medicina narrativa permite uma compreensão mais profunda da realidade clínica, incorporando a experiência subjetiva do paciente nos dados objetivos recolhidos, o que enriquece o diagnóstico e o plano terapêutico;
- Intervenções mais eficazes: Conhecer o contexto social, emocional e cultural permite decisões clínicas mais ajustadas à realidade do paciente;
- Combate à desinformação: A medicina narrativa pode ser uma ferramenta poderosa para construir pontes entre ciência e experiência pessoal, ajudando a desconstruir mitos, fake news e negacionismo;
- Melhoria da prática autorreflexiva: Incentiva a reflexão sobre a própria prática profissional e o desenvolvimento de capacidades para melhor narrar e organizar informações de forma mais coerente.
Pacientes
- Sentimento de acolhimento: Ao serem ouvidos atentamente, os pacientes sentem-se mais valorizados e reconhecidos na sua individualidade e no seu sofrimento;
- Maior confiança e adesão ao tratamento: A construção de uma relação mais próxima e empática aumenta a confiança no profissional de saúde, o que pode levar a uma melhor adesão aos tratamentos e a uma maior satisfação com os cuidados prestados.
Relação médico-doente
- Humanização do cuidado: A escuta das histórias pessoais fortalece a relação entre médico e paciente, promovendo confiança e colaboração;
- Cuidado integral: Ajuda a estabelecer uma ligação entre dimensão biológica da doença com as dimensões sociais, culturais e emocionais do paciente, promovendo um cuidado mais completo e efetivo.
De salientar que a medicina narrativa não se opõe à medicina baseada na evidência, apresentando-se antes como uma prática complementar, que oferece uma compreensão mais completa da condição humana e da doença, adaptando as evidências científicas às necessidades particulares de cada pessoa

A medicina narrativa na formação médica
Tendo em conta as vantagens da Medicina Narrativa para a prática dos profissionais de saúde, muito se tem debatido sobre a importância de a mesma ser integrada nos programas de formação médica.
Como referem Maria do Céu Machado e João Lobo Antunes (2016), num artigo que publicaram na revista científica da Ordem dos Médicos, “o conceito de Medicina Narrativa é mais do que uma disciplina, é uma área de comunicação, colaboração e profissionalismo que exige treino na prática médica e capacidades de relacionamento interpessoal, ético, interpretativo e reflexivo”. Como tal, “o docente clínico deve ter formação na área e ser o modelo na forma como colhe uma história clínica e no relacionamento com o doente e a família”.
Da mesma forma, Francisco Sobral do Rosário (2021) defende que “a sua inclusão no processo de formação médico, como já é corrente na América do Norte, permitirá um treino que poderá conduzir a uma melhor e mais completa interpretação da realidade clínica.” Como tal, a sua integração poderá conduzir a uma alteração de paradigma na forma como se entende o cuidado.
Escutar para ajudar a curar
Num cenário em que a tecnologia avança rápida e a passos largos, a medicina narrativa lembra-nos que o cuidado começa com a escuta. Que por detrás de cada protocolo há uma vida, e que ouvir é, muitas vezes, o primeiro passo para curar.
Nota: Dando seguimento ao meu interesse em aprofundar conhecimentos sobre a dimensão humana dos cuidados de saúde, em 2018, fiz a formação em Medicina Narrativa da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, mais tarde, noutro contexto, desenvolvi a minha dissertação de mestrado (ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa) sobre a relação médico-doente.
Referências Bibliográficas
• Antunes, J. L. (2016), Ouvir com Outros Olhos, Lisboa, Gradiva, 5.ª edição.
• Charon, R. (2001), Narrative Medicine: A Model for Empathy, Reflection, Profession, and Trust. JAMA, 286(15), 1897–1902.
• Machado, M. C. e Antunes, J. L. (2016), Narrativa da Doença: Uma Disciplina Optativa na Faculdade de Medicina de Lisboa. Acta Med Port, 29(12), 790-792.
• Rosário, F. S. (2021), Medicina narrativa – pensar a prática clínica noutra perspetiva. Cadernos de Saúde, Universidade Católica Portuguesa.