O perfeccionismo leva-nos a desistir mesmo antes de começarmos, ocupando um lugar que é sobretudo de controlo e proteção, já que alimenta a ideia de que, se parecermos perfeitos, podemos minimizar a crítica e a rejeição.

O perfeccionismo está nos meus genes, encontrando-se de tal forma impregnado que demorei anos até perceber que não é exatamente uma coisa boa. Por essa razão, fui daquelas pessoas que, em entrevistas de emprego, facilmente apontava o perfeccionismo pensando que era uma qualidade.

Foi preciso viver várias vidas para finalmente me dar conta de como esta característica pode ser mais defeito que virtude, tendo sido o que me afastou de tantas experiências e vivências. Por exemplo, se não fosse o perfeccionismo, provavelmente teria dado hipótese à patinagem e ao badminton, e não teria desistido da ginástica rítmica. Eventualmente, teria continuado a bordar e a aprender renda de bilros. E talvez soubesse tricotar todas as partes de uma camisola, sem deixá-la pela metade. Talvez tivesse dito “sim” a algumas oportunidades, que recusei por achar que não reunia todos os requisitos.

Ao acompanhar outras pessoas em terapia – homens e mulheres, mas sobretudo mulheres – vou-me dando conta de como o perfeccionismo está latente e afeta tantos de nós, afastando-nos não só dos nossos dons e talentos, mas até de simples atividades do dia a dia que nos dão prazer e fazem sentir bem, mesmo que não sejamos incrivelmente geniais a executá-las.

Fator que leva à desistência de nós

Ao instalar-se em nós, o perfeccionismo leva-nos a desistir mesmo antes de começarmos, ocupando um lugar que é sobretudo de controlo e proteção, já que alimenta a ideia de que, se parecermos perfeitos, podemos minimizar a crítica, o julgamento, a vergonha e a rejeição.

O grande problema é que, ao defender-nos de forma tão apertada, acaba por nos impedir de viver, de sermos plenamente quem somos. Limita a expressão da nossa criatividade e inteireza.

Não tenho dúvidas de que jamais seria uma patinadora famosa – não é disso que se trata! – mas, se tivesse percebido tudo isto anos antes, hoje conseguiria andar de patins, de braços abertos e sorriso rasgado, sem medo de cair.

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Texto publicado originalmente no Instagram e Facebook no dia 14/01/2025