Neste mundo acelerado, em que pensamentos, emoções e sentimentos tendem a ser ignorados ou reprimidos, a escrita pode funcionar como uma poderosa ferramenta de autoconhecimento e bem-estar. Sobretudo, se for usada em contexto terapêutico. Mais do que uma técnica, é um convite à escuta interior. Sabem o que é a escrita terapêutica?

“Querido diário…”. Não sei quanto a vocês, mas eu passei grande parte da minha adolescência a escrever esta frase e a sentir, dentro de mim, de cada vez que o fazia, os efeitos imediatos que a escrita pode ter a nível psicológico. Amores não correspondidos, discussões com a melhor amiga ou queixas sobre as injustiças da vida em geral, tudo isto era passado para o papel, sem parar para pensar muito nem corrigir a gramática. O resultado era, muitas vezes, sentido na forma de alívio emocional ou num dar-me conta de outras perspetivas da mesma história de que ainda não me tinha apercebido.

Ainda hoje mantenho a prática – só não começo com “querido diário” – mas tenho vindo a introduzir adaptações que vão ao encontro das necessidades de trabalho interior que vou detetando em mim. Como tal, hoje pratico diariamente a escrita terapêutica e uso-a também, com frequência, nas sessões de terapia transpessoal que facilito.

O que é a escrita terapêutica?

A escrita terapêutica é uma prática de expressão emocional que recorre à escrita, com o objetivo de facilitar o processamento, compreensão e integração de experiências, aliviar tensões, promover equilíbrio psicológico e proporcionar maior autoconhecimento. De salientar que não exige talento literário, apenas autenticidade. Esta prática pode ser levada a cabo em cadernos/diários, cartas não enviadas ou em qualquer outro suporte que permita a livre expressão através da escrita.
A escrita terapêutica pode ser usada como ferramenta de autoajuda/autoconhecimento ou integrada em contextos clínicos, como salientam Figueiras e Marcelino (2008), promovendo o processamento cognitivo e emocional de eventos significativos.

Benefícios comprovados

Inúmeros estudos científicos e experiências clínicas têm vindo a apontar diversos benefícios da escrita terapêutica. Destacam-se, por exemplo, as investigações conduzidas pelo psicólogo James W. Pennebaker (1997), um dos pioneiros na área, e que desde os anos 1980 tem apontado o contributo desta técnica na melhoria do humor, dos níveis de stress e de sintomas depressivos, entre outros benefícios.
Também Baikie e Wilhelm (2005) concluíram que a escrita expressiva (como também é denominada a escrita terapêutica) pode contribuir para melhorar a saúde mental e física, especialmente se for praticada regularmente. As investigadoras reconhecem-lhe um grande potencial como ferramenta terapêutica em diversos ambientes clínicos ou como forma de autoajuda, quer seja usada individualmente ou como complemento de outra terapias.


Estes são alguns dos benefícios da escrita terapêutica:

  • Redução do stress e ansiedade
  • Maior autoconhecimento
  • Melhoria da clareza mental
  • Aumento da autoestima
  • Promoção do equilíbrio emocional
  • Melhoria do humor
  • Alívio do stress pós-traumático
  • Gestão de sintomas depressivos
  • Ajuda na resolução de conflitos internos
  • Fortalecimento do sistema imunológico

Ao escrever, damos nome ao que sentimos. E quando nomeamos, deixamos de estar reféns do caos emocional, logo, começamos a compreender, aceitar e, muitas vezes, a libertar.

Benefícios da escrita terapêutica e como praticar

Como começar a praticar

  • Escolhe um caderno e destina-o apenas às tuas anotações;
  • Define um tempo regular para escrever, sem pressões (mesmo que sejam apenas dez minutos por dia);
  • Escreve sem censura, não te preocupes com gramática, estilo ou coerência (ninguém vai ler, só tu);
  • Foca-te nas emoções e nos pensamentos que te surgem, não apenas nos factos;
  • Começa com temas leves e avança gradualmente para os mais profundos;
  • Para iniciar, podes começar por escrever sobre o dia, com ênfase nos sentimentos, pensamentos e reações, ou redigir uma carta (que não será enviada) a alguém ou ao teu “eu” mais novo ou mais velho.

Apoio terapêutico poderá ser necessário

Quem deseja atingir objetivos específicos com a escrita terapêutica poderá beneficiar em fazê-lo com acompanhamento. Tal também é recomendado se, no decurso do uso desta ferramenta, a pessoa sentir desconforto emocional intenso. Isto porque escrever sobre o nosso mundo interno, nomeadamente, sobre os nossos sentimentos, emoções, pensamentos e experiências, aumenta a consciência que temos sobre nós e a vida, pelo que pode ser importante fazer o processo com acompanhamento de um terapeuta. Este não só facilitará o processo (por exemplo, propondo exercícios adequados às temáticas a trabalhar) como irá acolher, escutar, suster e acompanhar quando as tomadas de consciência se aprofundarem e tocarem em pontos de maior vulnerabilidade para a pessoa.

Uma prática que transforma

Muitas pessoas relatam mudanças significativas após adotarem a escrita terapêutica. Tal acontece não porque os problemas desaparecem, mas porque passam a ser vistos com outros olhos. De facto, a escrita não resolve, mas ajuda a entender, a aceitar e a seguir em frente com mais leveza. Como referem Benetti e Oliveira (2016:75), “o processo de escrita pode ajudar as pessoas a encontrar ou reencontrar sentidos para suas vidas e a explorar e compreender sentimentos e emoções. (…) A escrita pode influenciar na aceitação de realidades do passado, nas decisões no presente e na elaboração de objetivos para ajustar o caminho para o futuro”.

Escrever para me encontrar

A escrita terapêutica é um convite à escuta interior. E esta escuta é, hoje, especialmente necessária, tendo em conta o contexto em que vivemos imersos e que nos distrai constantemente. A escrita tem o poder de nos devolver a nós.

Se nunca experimentaste a escrita terapêutica, talvez este seja o momento. Pega numa caneta e começa. Não há certo ou errado, há apenas o que precisa de ser trazido cá para fora. Se necessitares de alguma orientação, entra em contacto comigo.

Referências bibliográficas

• Baikie, K. A., e Wilhelm, K. (2005). Emotional and physical health benefits of expressive writing. Advances in Psychiatric Treatment, 11, 338–346.
• Benetti, I.C., e Oliveira W. (2016), O poder terapêutico da escrita: quando o silêncio fala alto, Cadernos Brasileiros de Saúde Mental, ISSN 1984-2147, Florianópolis, v.8, n.19, p.67-76, 2016.
• Figueiras, M. J., e Marcelino, D. (2008). Escrita terapêutica em contexto de saúde: Uma breve revisão. Análise Psicológica, 26(2).
• Pennebaker, J. W. (1997). Writing about emotional experiences as a therapeutic process. Psychological Science, 8(3), 162–166.