É um momento na vida marcado por profunda tristeza e angústia e pode atingir qualquer pessoa. Atravessar a noite escura da alma significa chegar ao outro lado e reconhecer as aprendizagens do caminho.
É possível que qualquer pessoa atravesse, nalgum momento da vida (ou em vários), aquilo que o místico e poeta São João da Cruz (1542-1591) designou como noite escura da alma. Isto é, um período de tristeza, angústia e dúvida tão profundas que é capaz de tirar o chão e desestruturar o mais forte, alegre e resiliente dos seres humanos.
Inicialmente, esta expressão, que São João da Cruz usou como título para um dos seus mais famosos poemas, referia-se a um período de profunda angústia espiritual, em que a pessoa se sente desligada de Deus e do seu propósito da vida. Posteriormente, o conceito passou a ser usado de forma mais ampla para designar uma fase de grande crise existencial ou transição intensa, com envolvimento não só espiritual, mas também emocional, psicológico e, até, físico. Por exemplo, na sequência de perdas e lutos (a morte de um ente querido ou o desemprego), durante mudanças de vida significativas ou em momentos de questionamento profundo sobre o sentido da existência.
Da escuridão para a luz
Ainda que este possa ser um entendimento que cause estranheza, incompreensão e recusa à maior parte das pessoas, a verdade é que, para São João da Cruz, a noite escura da alma era encarada como um caminho para a luz. Apesar de extremamente difícil e doloroso, poderia ser visto como um período eventualmente associado a uma etapa do percurso que é necessário atravessar, uma oportunidade de crescimento pessoal e de autoconhecimento. Considerava-o como uma fase de um processo de “purificação”, que permite à alma libertar-se de ilusões e apegos para alcançar uma união mais profunda com o divino.
Outros autores mais recentes, como o psicoterapeuta norte-americano Thomas Moore, encaram a noite escura da alma de uma perspetiva idêntica. Ou seja, como uma vivência que nos traz aprendizagens, que nos vem pedir para olharmos para emoções e sentimentos que carregamos sem olharmos, sem aceitarmos. É um processo que vem para ser atravessado e não para ser suprimido rapidamente e a todo o custo.
Tal como Thomas Moore escreveu em A Noite Escura da Alma, “se dedicarmos todos os esforços à tentativa de nos livrarmos da nossa noite escura, podemos perder as lições que ela tem para nos ensinar e não passar pelas modificações importantes que ela nos pode proporcionar.”1
O autor acredita mesmo que “é provável que os conhecimentos que possuímos sobre a nossa alma advenham mais de períodos de dor e de confusão do que de momentos de conforto”.2 Mas isso significa que, para acedermos a estes conhecimentos da alma, precisamos de aprender a lidar com a dor, a atravessá-la. E isso é algo que choca de frente com o que se defende e pratica no mundo ocidental, e que passa por suprimir de imediato a dor, aniquilá-la rapidamente, sem sequer perceber o que a motiva.
A “aprendizagem da dor”
A este propósito, recupero o que o poeta e padre José Tolentino Mendonça escreve acerca da “aprendizagem da dor”, considerando-a “um dos caminhos necessários para a alegria”.3 O cardeal nota que “a vida em sociedade obriga-nos a escondê-la [à dor], a disfarçá-la bem entre os afazeres, as pressas, o rumor conformista do tem-de-ser”, e assim não aprendemos a lidar com ela, pois “ninguém nos disse como se abraça e trabalha a dor”4. A verdade é que, como o autor destaca ainda:
“Ninguém arrisca afirmar: «Esta dor ainda te vai ser útil.» Não apenas a dor física, mas sobretudo a outra, a dor da fragilidade, a dor antiquíssima para a qual não temos palavras, a dor das nossas íntimas derrocadas. Seria preciso, talvez, começar por ver a dor não como um obstáculo, mas como um caminho.”5
A terapia transpessoal e a noite escura da alma
Entendendo a noite escura da alma como uma espécie de iniciação, que nos leva de uma fase da vida para outra, Thomas Moore considera que, para melhor a atravessar, pode ser útil procurar as suas raízes, o que está na origem da escuridão. Mas, acima de tudo, defende que “a melhor forma de lidar com ela é encontrar a ação ou decisão concreta que a mesma está a pedir”.6
Pelas suas características, a terapia transpessoal é uma abordagem terapêutica que se adequa a ajudar a atravessar a noite escura da alma7. Ao promover a escuta e envolver diversas técnicas e ferramentas que se destinam a deixar a alma expressar-se – ao seu ritmo e na sua linguagem própria – a terapia transpessoal permite que a pessoa descubra partes de si que, por falta de serem vistas e ouvidas poderão ter concorrido para a escuridão. Há, pois, que escutá-las e seguir o que é pedido. Há que seguir a alma.
- Moore, Thomas (2007), A Noite Escura da Alma – Rituais de Passagem: Como Superar as Provações da Vida, Lisboa, Planeta Editora, p. 14. ↩︎
- Idem, p. 13. ↩︎
- Mendonça, José Tolentino (2020), Rezar de Olhos Abertos, 6.ª Edição, Lisboa, Quetzal.107. ↩︎
- Idem. ↩︎
- Idem, ibidem. ↩︎
- Moore, Thomas (2015), “A Dark Night of the Soul and the Discovery of Meaning”, Kosmos – Journal for Global Transformation, https://www.kosmosjournal.org/article/a-dark-night-of-the-soul-and-the-discovery-of-meaning/ ↩︎
- A terapia transpessoal não substitui a consulta de profissionais de saúde adequados à situação. ↩︎