Quando ouvimos e lemos a médica Ana Claudia Quintana Arantes, percebemos que a principal questão que envolve a morte é, na verdade, a vida. Daí o título deste livro, que nos parece provocatório, mas não é: “A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver”.

Há anos que me sinto compelida a estudar o tema da morte. Nunca me assustou nem afastou, e as reportagens que fiz junto de unidades de cuidados paliativos, numa altura em que esta temática era ainda pouco conhecida e compreendida no nosso país, aumentaram este meu interesse. Mais do que um interesse, sempre foi uma espécie de chamado, que fui deixando que se manifestasse ao seu tempo, sem pressas.


É neste contexto que surge a leitura deste livro da médica brasileira Ana Claudia Quintana Arantes, geriatra e referência na área dos Cuidados Paliativos, alguém que fala destes temas de forma tão poética e bonita – mas também tão crua e assertiva – que quando a ouvi pela primeira vez, numa palestra muito popular no YouTube e que deu origem a este livro – percebi que estava na hora de deixar que o tema da morte e do acompanhamento nesta etapa da vida voltasse a encontrar espaço no meu tempo, no meu corpo e na minha alma.


“A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver” parece um título provocatório. E é, ainda que não da maneira que somos levados a pensar. É provocatório porque nos convoca, isso sim. Convoca-nos a olhar para a forma como vivemos a vida, de maneira a melhor podermos viver a morte.

Porque recomendo a leitura

Recomendo a leitura, que não é nada mórbida, antes pelo contrário. É plena de vida, de questões, de inquietações e desarrumações internas. E chama a dimensão espiritual para as conversas sobre a morte, porque a nossa finitude é muito mais do que uma questão de tratamentos, medicamentos e intervenções. É também ( é sobretudo?) sobre como encaramos e nos preparamos para essa passagem.

“O que se viveu” não é tão importante como pensar em “como” ou “para quê” se viveu. Uma das aprendizagens mais importantes neste meu trabalho a cuidar de pessoas terminais é precisamente não responder a um “porquê”, mas a um “para quê”. O “porquê” evoca os motivos passados e o “para quê” lança-nos para o futuro. Para que vivemos isto? Passar por uma perda pode dar-nos a perceção do tamanho do amor que fomos capazes de sentir por alguém, de como essa pessoa pode ter sido generosa ao esperar o nosso tempo de aceitar a sua morte. Na experiência da perda, é possível que finalmente entendamos quem é Deus para nós, o que é sagrado para nós.” p. 137


Ana Claudia Quintana Arantes, in “A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver”, Pergaminho, 2025.

Texto publicado originalmente no Instagram e Facebook no dia 25/08/2025, integrado na rubrica de sugestões literárias e biblioterapia